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Digo eu

Digo eu

Uma amizade como a nossa

 

 

 

 

 

Eu não pedi para nascer e no entanto aqui estou eu, não pela decisão consciente dos meus pais mas sim porque eles acreditavam piamente que deveriam ter os filhos que Deus quizesse.

Só o facto de ter dado a vitória às mulheres lá de casa por ter sido o desempate, já valeu a pena. Como sabem, números pares é um bocado irritante e tinha que haver mais um membro na família para desequilibrar a balança, onde estava em cada prato 8 rapazes e 8 raparigas. Tudo muito composto não tem graça. Acima de mim há 4 rapazes, tudo bons rapazes por sinal, onde a maluqueira se faz representar em grande escala, de longe os mais asneirentos, a quem a disciplina não alterou os genes nem a vontade de desobedecer às regras que eram impostas. 

Habituei-me assim a dar-me mais com rapazes, embora adorasse brincar com bonecas e fazer de conta que era mãe de todas elas. À medida que fui crescendo, não tinha grande paciência para raparigas e a única com quem me dava como se fossemos irmãs gémeas, era com a Ritinha minha prima, que sempre teve imensa graça. Fumavamos às escondidas no pinhal da quinta da marinha onde morávamos, massos inteiros de seguida, já que não os podíamos levar para casa. 

Fomos crescendo assim,  no meio de rapazes a fumar cigarros, com uma linguagem muito própria, uma linguagem que não precisava de muitas palavras. Bastava dizermos o princípio das frases para saber o que se seguia, fosse qual fosse o assunto. Riamo-nos às gargalhadas e nunca houve qualquer espécie de rivalidade entre as duas, mas sim um entendimento tão delicioso que quase parecíamos ser a mesma pessoa. O tempo durava uma eternidade, havia de sobra para fazermos tudo e mais alguma coisa e éramos miúdas felizes, bem dispostas, do tipo unha com carne, mata e esfola. 

Eu não sabia como iria ser a minha vida, A Ritinha também não. A verdade é que chegou a uma dada altuta em que os percursos foram diferentes, nunca ao ponto de nos sentirmos estranhas ou deixarmos de nos importar uma com a outra. 

Ela casou-se muito mais cedo do que eu e teve 2 rapazes. Eu casei-me muito mais tarde do que ela e tive 2 raparigas. Ela já é avó, eu ainda não. Ela vive no Alentejo, eu em Cascais. Nada disso alterou a nossa amizade. Continuamos a entendermo-nos às mil maravilhas, a falarmos com a mesma descontração de sempre e a sabermos tudo o que importa sobre a vida de cada uma. 

O grande segredo duma amizade assim não tem que passar pelo mesmo estilo de vida nem necessariamente pelos mesmos gostos. Basta não haver nenhuma imposição, nehuma exigência ou sequer a mínima dúvida que estamos na vida uma da outra quando queremos estar. 

 

Se o tempo esperasse

 

 

 

 

Gostava de te ter sempre comigo. Seria como se o sol nunca se fosse, como se o verão durasse para sempre mas sem o calor insuportável. Eu sei que não é possível, que tudo mudou entretanto e nada nesse aspecto  se assemelha às fases da lua que vão e voltam, entre espaços regulares. 

 

Em relação a ti, eu tenho sempre aquele feeling que passa tudo tão rápido que nunca chego a matar as saudades. O tempo de espera é muito mais longo do que eu gostava e quando chega a hora de nos encontrarmos, não temos tempo de nos gozarmos. Chegas e logo sais, à procura de outra gente, mais da tua idade. Imagino os abraços, as farras, os copos e os risos, tudo aquilo que te faz voltar a outro andamento mais descontraído, numa altura de pausa que é preciso aproveitar para curtir, sem ter horários para cumprir. Descansar... Nada.  Está tudo na mesma, mas todos mudaram e nem todos te festejam como esperavas. Dá para notar que lá no fundo, fica uma certa nostalgia de outras alturas em que mais te identificavas, porque não conhecias mais nada. 

 

Eu entretanto também mudei. Tive que me adaptar e me reorganizar. Não é nada fácil mas é o que tem que ser. Contra isso não posso fazer mais nada senão  aceitar e viver o melhor possível, sem ter por perto o melhor sol de todos, aquele que me aquece a alma. Para mim, o previsto começa a ser mesmo evidente. Os anos passam e a gente vai envelhecendo sem a menor chance de parar o tempo. Devia haver um “remote control” que nos fizesse travar para apreciar os bons momentos, ou pelo menos que os fizesse andar em “slow motion”, para que se visse cada detalhe.  

 

 

Só nas lembranças reside esse prazer. De resto há que continuar e acumular experiências, esperar por novos encontros com gente que nos vai fazer sentir outras coisas como a maturidade, o “know-how”, a responsabilidade e outros agrados especiais que a vida nos traz.