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Digo eu

Digo eu

Pontos nos is

 

 

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 Eu não sou aquela pessoa que um dia idealizaste ser perfeita. Se me queres admirar, não me coloques num pedestal como uma obra-prima de Deus, criador do céu e da terra, ou como um anjo que não tem pecados.
Vê-me antes como eu sou. Um ser humano igual a tantos outros que tem consciência que o espírito dá vida ao corpo, passando-me a corrente eléctrica necessária para poder andar por aqui, sabe-se lá até quando.
A minha alma não é imaculada mas tem vontade própria, nem sempre a mesma que a tua. Digamos que sem ela eu não poderia sentir nem prazer nem dor nem todas as sensações mais fantásticas e as outras que fazem chorar até as pedras da calçada e, nesse aspecto somos iguais. 
Adoro a praia mas estou naquela fase de estar farta, desde a raiz dos cabelos até à ponta dos pés. Eu sou assim. Farto-me das coisas que mais gosto, preciso de me afastar delas para depois sentir saudades e retomar a conversa. Amanhã posso já ter mudado de ideia e avançar mar adentro, sedenta da espuma que bate na areia e sair de lá com um sorriso na cara, revigorada. 
Não conheço a vantagem de ser sempre igual - uma estátua num pedestal, esculpida segundo o teu critério. É melhor ter mistério e ser uma aventura constante, apresentando um número variado de escolhas, em vez de ser sempre a mesma porra, independentemente das circunstâncias.
Detesto isso. Em contrapartida adoro variar, mudar de assunto na mesma frase ou contrariar o que comecei por dizer, mas nem sempre - tu até que te ris. Tenho alguma lógica mesmo que não a percebas e que faças troça da minha graça, como se fosse a gaja mais improvável que existe à face da terra. 
Faço as pausas que eu entendo e prossigo quando tenho vontade. Só ponho os pontos nos is quando me apetece, faço exclamações no meio de perguntas e calo-me quando acho que não vale a pena responder a provocações. Prefiro ser eu a provocar-te com a minha irreverência e surpreender-te a cada passo.

 

 

Um dia de cada vez

 

 

 

 

 


Vamos entrar numa nova etapa. O verão está prestes a encerrar as portas e as praias vão ficando sem pegadas, mais bonitas e desertas. Todos se preparam para entrar na linha depois das férias, havendo gente que se separa. Uns vão para fora e fazem as malas, contando com tudo o que é preciso para se ausentarem. Um ano de novas aprendizagens e a certeza de crescer em direcção a parte incerta - O futuro.  O coração fica pequeno, apertado e bate assim descoordenado por todas as emoções que se passam. São muitos os pontos de interrogação. Como será a nova casa, quem irá morar nela, quem irá cozinhar em tachos e panelas.  Este tempo é nostálgico. Não chega para chorar mas quase. Vem então um suspiro e depois outro e outro ainda. É um sinal de cansaço, de expectativa, uma vontade de ir e no entanto... Aqui fica um pedaço: os amigos, a praia mais fantástica, os fins de tarde inesquecíveis e as conversas. Ainda há pouco despedimo-nos do mar, enquanto o sol descia no horizonte coberto de névoa cor de terra. Espero que a chuva se atrase e que eu receba uma carta muito em breve.

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Malucos e loucos, heis a diferença

 

 

 

 

Há uma mania bem característica nossa, aquela que sai da boca de toda a gente para falar de seja quem for: “ah esse gajo? Esse gajo é maluco!” Somos todos malucos em Portugal, quer sejamos certinhos ou extravagantes, crentes ou agnósticos, gordos ou magros, baixos ou altos.

Essa maluqueira abrange qualquer idade e não depende de qualquer extracto social. Ela está em toda a parte, de norte a sul do território nacional, abrangendo até os que emigraram para terras distantes à procura da sorte.  Não interessa aprofundar donde vimos ou quem somos, o que fazemos ou deixamos de fazer, porque seremos sempre malucos por uma razão qualquer, motivo de críticas e risotas, mesmo que gostem de nós genuinamente ou que nos tenham um ódio de morte. 

Há uma grande diferença entre o ser-se maluco (que pode ter imensa graça) e o ser-se louco. Os loucos não jogam com o baralho todo. Por qualquer razão (e a gente não sabe qual) aprendem a viver assim, enganando os outros e a si próprios, através de manhas e chantagens, truques diabólicos, perante os quais ficamos atónitos. As reacções são diversas... Ou temos literalmente vontade de os matar, ou temos pena,  sendo que o mais comum é mantermos-nos deliberadamente longe do problema.  Ser louco é verdadeiramente problemático, tanto para os próprios loucos como para quem os conhece.  

E a gente diz e repete: Como são capazes? O que é que lhes deu para serem assim? Invariavelmente chovem críticas e cresce assim uma falta de pachorra infindável para aturar esses loucos manipuladores e espertos que nem um alho. Mesmo olhando para trás e conhecendo o historial, é impossível colocarmo-nos na pele dum louco desse calibre.  É impossível compreender os actos desvairados, a falta de senso, a chamada constante de atenção através de condutas lamentáveis. 

Não é ridículo mas triste. São gritos silenciosos de gente que se maltrata, que viraram farrapos humanos por razões que nós não percebemos. Não percebemos porque não somos como eles são. São atitudes que nos ultrapassam e nos desesperam, por não termos  a capacidade de saber lidar com tamanha desgraça. Gente sem juízo, tendo ao mesmo tempo a necessidade de escandalizar,  querendo chamar a atenção custe o que custar, seja onde for, escolhendo quase sempre as alturas menos apropriadas.

É assustador. É de fugir a sete pés a toda a velocidade sem querer olhar para trás. Nós que gozamos do nosso juízo, que levamos uma vida normal, que temos os nossos problemas e a capacidade de lidar com algumas frustrações e revoltas, não temos a solução para ajudar esses loucos de quem muitas vezes somos tão próximos. 

 

Eu queria ser hippie e ter uma roulote

 

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Sabem aquela ideia super romântica que se tinha sobre o amor e uma cabana? Pois, isso já era ou se calhar nunca foi.

Mesmo nos anos sessenta, em pleno delírio hippie com a malta toda de cabelos ao vento a fumar charros e a dar chutos de cavalo que faziam ver cenas muito maradas, umas curtes cheias de estrelas e idas ao mundo irreal que acabavam por acabar mal, a ideia do romantismo nunca passou disso mesmo. De uma ideia. Não acredito que se fosse feliz a viver daquela maneira tão desprendida de bens materiais e com uma ausência total de higiene pessoal, a não ser quando estavam sob o efeito daquelas substancias que faziam que tudo parecesse transcendental.

A ideologia do “peace and love” estava certíssima.  O movimento manifestava-se contra as guerras e a violência em geral, contra a injustiça e a desigualdade na sociedade e houve um despertar para a preservação da natureza e para a partilha de bens alimentares.  Até ai tudo bem. Dai passou-se para a liberdade sexual, onde a permiscuidade era prática corrente, o que devia ser uma bela javardeira...  até já estou com vontade de vomitar! 

Imagino um espaço hippie dessa época, com a malta toda em pelota mais a bicharada a passear-se pela casa, desde cães a gatos, passarinhos amorosos e outras coisas menos apetitosas como ratos, baratas e piolhos a saltitarem livremente por todo o lado, ao som de gemidos que vinham das camas e da música da época que eu tanto gosto, onde as letras eram a favor dos oprimidos e da liberdade.   

Eu que sempre tive uma atração pelos hippies e uma queda para ir contra as regras, nunca cai na tentação de entrar no mundo das drogas nem de me descuidar da higiene, embora adorasse andar descalça, ter cabelos compridos  e vestir-me com saias até aos pés. Na minha adolescência imaginava-me perfeitamente  casada, cheia de filhos lindos a viver numa roulotte repleta de almofadas, colchas em patchwork e plantas penduradas nas janelas, onde não poderiam faltar todos os produtos de limpeza pessoal, incluindo água de colónia.  Queria ser uma hippie cuidada e consciente, vivendo livremente com amor e uma cabana, uma horta e pouco mais.  Delírios de uma adolescente que foi entrando na real, dando de caras com a vida que é bem mais difícil do que poderia imaginar.  

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Se por um lado a vida é bela, por outro também é lixada. Para ter o que se quer é preciso ter dinheiro e para ter dinheiro é preciso trabalhar. 

 Já não existe sequer a ideia de amor e uma cabana, mesmo estando perdidamente apaixonado. Quem pensa juntar os trapos, quer garantir à partida um lugar com toda a comodidade e todos os extras que se tornaram bens essenciais. 

 

 

 

O ritual do picnic de Setembro e as gajas surdas mas boas

 

 

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Todos os anos temos a cena do famoso picnic dois em um que se repete, precisamente no mesmo dia deste glorioso mês de Setembro,  por volta da mesma hora e no mesmo local, para festejarmos os anos da Tininha e da Pinoca.

Acontece que hoje, fomos obrigadas a invadir a casa  de Janes em vez de nos instalarmos à beira mar no nosso areal predilecto, por causa do badanal que se fazia sentir e que a gente até agradece. O clima variado da nossa zona é mais uma razão para gramar à brava viver por aqui, donde ninguém arreda o pé, nem a bem nem a mal, ou seja, nem com conversas mansas ou argumentos válidos, nem arrastadas pelos cabelos, nem que a vaca tussa ou se cale.  Está totalmente fora de questão! 

Quanto ao nosso aspecto, embora seja estupendo,  já ninguém consegue disfarçar o desgaste pelo calor dos últimos tempos e até que este intervalo deu imenso jeito para mostrarmos outro tipo de toilette e tirar uma folga da praia. 

No nosso grupo há de tudo e as idades variam entre os 20 e os 50(as), mas no que respeita à mentalidade, em pouco ou nada difere.  Tratamo-nos umas às outras por filha e é palavrão que ferve, seja para falar de comida, dos maridos,  dos filhos ou do diabo a sete.  

Os assuntos vão desde as dietas até à Cochichina,  evocando coxas e barrigas, rabos e peitaças, os quilos que se ganham e os que é preciso perder, trocando-se de tema  na mesmíssima frase para falar dos tempos modernos, das selfies com o Marcelo e dos filhos que saem de casa e se preparam para experimentar como é viver com o namorado(a) sem a parte efectiva do casar, que fica para mais tarde.  A berraria vai até ao Algarve (por falar em Algarve, a Barreta fez cá falta), devido ao grande entusiasmo mas  também à surdez que nos vai atingindo, dando aquela sensação de coceira medonha nos ouvidos e as caras franzidas que perguntam: han, han? 

Enquanto se grita e se ri também se come e não é pouco. Neste dia não há cá dietas nem manias de ingredientes sem glúten que isso é tudo uma chachada que faz muito mal à saúde, principalmente à mental.   Ele é empadas,  saladas, quiches, batatas fritas, croquetes, vinho, limonada e para acompanhar o café, há pasteis de nata, mini croissants, brigadeiros e o delicioso bolo de chocolate da Branca de Neve.

 

 

 

 

Larga a corda bamba

 

 

 

Não conheço ninguém que não goste de rir. Nós somos peritos nessa matéria, mesmo com as coisas mais simples. Arranjamos sempre maneira de ter garça, falando daquela maneira que só nós sabemos falar. Mas de vez em quando também é preciso falar a sério.

Quero saber imensas coisas sobre a tua vida mas acima de tudo, interessa-me saber o que sentes e como olhas para o mundo. Já deves ter percebido que se ganha experiência ao longo da vida, assim como se ganha uma noção mais real de como somos e como são os outros,  o que queremos fazer e o que não queremos de todo, quem são as pessoas que nos interessam e quem são as que pomos de lado, por não terem rigorosamente nada a ver connosco, mesmo que, a dada altura, já não nos tenhamos identificado com A, B ou C e que agora já nem fazem parte no nosso alfabeto.  

É uma pena termos que perder outras tantas como a espontaneidade e a inocência que gostaríamos de manter, para que fosse sempre possível conservar a simplicidade de uma criança, tantas vezes inconveniente por ser transparente como água. Essa mesma inconveniência na fase adulta pode ser insuportável. Passamos a ter obrigação de medir o que vamos dizer a quem, tendo em conta a sensibilidade de cada um.  

Os anos passam e nós vamos sofrendo alguns golpes, enquanto tomamos consciência de que nem todos são o que julgávamos, nem todos são como gostaríamos que fossem, nem todos retribuem na mesma moeda o que lhes fomos proporcionando, como por exemplo o nosso tempo e a nossa paciência que às tantas também se esgota. 

Não é nada fácil entrar no mundo dos adultos e depararmo-nos com a porcaria toda que para lá anda. As manhas, as mentiras, a falsidade. É preciso uma grande dose de estaleca para superar todos esses murros que nos abanam por fora e por dentro, como se entrássemos num ringue, onde à partida sabemos que vamos levar porrada. Isso é uma daquelas coisas da vida que não podemos evitar. Não são as feridas que doem mas os sentimentos que provocam. Raiva, indiferença e uma necessidade estúpida de vingança que nos transforma e nos irrita ao ponto de perdermos a cabeça e até mesmo a razão, acredita.

Não penses que sou uma santa, daquelas que se cala e que dá a outra face como Jesus Cristo. Já tive ascos atómicos por muita gente e uma vontade incontrolável de as desfazer ao pontapé ou de as insultar de cima abaixo. Já tive os meus acessos de fúria, os meus momentos de tristeza, os meus ataques de nervos, daqueles em a sensação é de total impotência. Mas com o tempo também se aprende a puxar as rédeas para parar. Em vez de entrarmos em conflito com A, B ou C, o melhor é ignora-los ou pura e simplesmente deixa-los ser o que são, sem que isso nos afecte e nos transtorne. Deixa-te de equilíbrios na corda bamba.  Foca-te naquilo que interessa e aprende que há muita coisa na vida que não se pode mudar. Adapta-te às circunstâncias e aproveita tudo o que há para aproveitar, nunca esquecendo que o riso e o choro fazem bem à saúde e à alma. 

A praia é nossa!

 

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Meninas digam lá! Nós no guincho somos o quê? Não somos um bando qualquer que passa despercebido, mas antes daquele género bem despachado, sem tiques ou esgares de espécie nenhuma, mas com uma forma de expressão muito própria.  É ou não verdade? “

Para quem passa e não sabe quem somos nem donde viemos, deve achar (e pode achar o que quiser) que somos género tias irritantes de Cascais que se tratam umas às outras por menina e rematam as frases com “sei lá” ou “tá a ver” (como se isso pudesse alguma vez existir dentro do nosso grupo tão espectacular). Eu realmente até sou tia de muita gente e tia avó já agora, mas isso é outra conversa que nem me vou dar ao trabalho de continuar.  

Nós... Diria que somos daquelas mulheres bem resolvidas na vida, sem nada para esconder, sempre prontas para a risota, haja o que houver e que dizem de tudo sem papas na língua, com bastantes detalhes, muito prafrentex.. Falamos pelos cotovelos a propósito de tudo e de nada, sempre à espera que uma de nós lance uma bomba qualquer que nos faça rir à gargalhada. Mas antes disso trocamos mensagens para saber quem vai, a que horas e se alguém vai mais cedo, fica encarregue de marcar lugar. O lugar vai variando consoante a maré, o vento e o calor, se bem que todas fazemos questão que seja amplo e desimpedido de toalhas, chapéus, pranchas e raquetes, o que vai sendo difícil de conseguir. 

Começámos por ser algumas e agora somos muitas. Somos muitas e boas, só para que saibam. Não temos manias estúpidas, mas temos algumas manias, tais comer saladas em tapperwares e indagar o que foi que aconteceu ao homem das bolas que nunca mais aparece. A minha é mais passar a vida na água, independentemente do tamanho das ondas, enquanto as outras mergulham e saem, apavoradas. 

Temos um ritual obrigatório que consiste em abancar no  bar ao fim do dia, beber uns copázios, comer o que houver e quando não há nada que se coma, comem-se amendoins que a “Pinoca” traz de casa. 

Aproveitamos bem aquela praia e até as que não gostavam de qualquer brisa, passaram a gostar de vento (não é para me gabar, mas foram aprendendo algumas coisas comigo sobre como tirar proveito daquele lugar, que para mim é  sagrado). 

Enquanto houver saúde, haverá o nossa presença e uma boa galhofa num dos sítios mais maravilhosos do mundo,  digam lá o que disserem sobre nós e a nossa praia.

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