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Digo eu

Digo eu

Less is more

 

 

 

 

 

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Não há dúvida que se vai aprendendo umas coisas ao longo dos anos. É essa a grande vantagem da idade. Pois bem, cheguei à conclusão que por mais que se tente disfarçar os anos que temos em cima do pêlo, eles estão cá bem instalados sem haver qualquer hipótese de darem à sola. Por mais que se pinte o cabelo ou que se tente camuflar as rugas, os papos por baixo dos olhos ou aquele tão irritante que cresce debaixo do queixo, por mais dinheiro que se gaste em produtos exorbitantes que nos deixam depenadas, os anos não desaparecem como que por milagre. Não é indiferente porque nada o é. Não digo que dum dia para o outro a malta passe a ser balda, ao ponto de deixar de ir à depilação, ao cabeleireiro, à massagista ou ao ginásio. Isso já não é admitir os anos que se carregam, mas sim deixar de gostar de se olhar no espelho. Simplesmente tem que se ir aceitando a idade e viver de acordo com o que nos assenta bem. Cada vez mais me convenço que não há nada melhor do que andar confortável. Os excessos não acrescentam nenhum valor à nossa cara ou ao nosso corpo. Um pouco de base e um toque de blush mais uma ligeira pincelada de rimel são mais do que suficientes para se ficar “au point”. Quanto à roupa, sapatos e acessórios, quanto mais simples melhor. As extravagâncias são para quem pode e são muito raras as mulheres que aguentam tamanho luxo. Eu por mim prefiro jogar pelo seguro e restringir-me ao básico. Já me sinto desajustada com muita tralha em cima e para ser sincera fico uma pindérica. Cada vez mais sou apologista do “less is more”, mesmo com os meus piercings, as minhas botas e os padrões que gosto de misturar, que têm a ver com o estilo e não com a idade. Esta é a cara que tenho... Sorriso um bocado à banda, olheiras e papos, rugas de expressão e das outras próprias da idade. 

PurArrasto

 

 

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Não podiam dizer que não se riam juntos pelas mesmas razões. O sentido de humor era “somehow” idêntico e no entanto desentendiam-se pelas razões mais estúpidas à face da terra. Não era pela questão dos signos, até porque se tinham informado que existia compatibilidade entre os dois, uma harmonia delineada pelos astros do universo.

Ao longo dos anos tinham-se tornado mais tolerantes em certos aspectos e noutros mais irrascíveis, sendo difícil ceder a pequenas questões aparentemente insignificantes. Se por um lado estavam habituados um ao outro, por outro havia pontos divergentes e opiniões opostas em relação ao que cada um gostava, começando pelos programas televisivos e acabando nos destinos de viagem. No meio estava o quotidiano aborrecido, as chatices do trabalho, as tarefas da casa, as refeições em silêncio num ritmo apressado, a disputa disfarçada pelo amor dos cães e sobretudo o tom em que comunicavam, deixando transparecer pequenas frustrações problemáticas. Numa questão de segundos seria possível resolver o conflito, se ambos cedessem à teimosia instalada pelas personalidades vincadas. Esse lado sendentário da vida a dois era cómodo em certos aspectos e noutros desmotivante e sombrio, sem nada de novo a acrescentar. 

Nenhum dos dois sabia lidar com aquela situação, nem como sair dela. A relação tinha entrado pela porta do caos, uma anarquia sem princípio nem fim.  Tudo cheirava a mofo e o sofrimento sem nexo já fazia parte da vida em comum, um cenário repetitivo e desgastante a todos os níveis, excepto quando se dava um click na cabeça de cada um, em que se voltavam a achar graça. O humor era uma qualidade divina,  uma luz que vinha lembrar o quanto se amavam. 

Faziam então promessas silenciosas, um esforço consciente para virarem a página da obscuridade, já que nem sequer havia motivos graves que justificassem tamanha balbúrdia. Era mais uma questão de terem deixado que a vida se tivesse tornado num filme a preto e branco, quase sem acção, em que o som se assemelhava a um single riscado, não deixando que a agulha lesse a resto da música cheia de ritmo.

Não era pelas memórias do passado que deviam aprender. Essas eram apenas lembranças doutros tempos, ligadas à época em que eram mais novos. A resposta para uma relação harmoniosa apontava para “baby steps”, um dia de cada vez, sem lançarem para o ar votos e palavras vazias de conteúdo. O pacto já tinha sido feito “a long time ago”. Bastava lembrar o seu significado para que o empenho se tornasse genuíno.

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