Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Digo eu

Digo eu

À minha irmã Helena

 

Lena.png

 

 

 

Chegou um anjo e sentou-se aos pés da sua cama, sem se pavonear. Veio de mãos a abanar, sem água benta, sem óleo, sem vela, ou qualquer outro prenúncio de vida ou de morte.  Olhou para ela ali deitada e indefesa, admirou os seus cabelos brancos, as suas mãos enrugadas e o seu corpo magro com sinais de uma vida conturbada. A sua missão é acalma-la e trazer-lhe a paz interior, sem lhe pedir nada em troca, nem mesmo um breve olhar.  Está ali para lhe dar o tempo necessário para que ela própria decida o que quer, mantendo-se sereno e delicado, respeitando com todo o carinho a sua vontade. Não pretende perturba-la ou causar-lhe nenhuma espécie de constrangimento, nesta hora em que precisa de descansar. 

À sua frente estão todos os trajectos daquela vida, as quedas e os progressos, as alegrias e as tristezas, as razões e as incertezas que não devem ser qualificadas entre o bem e o mal. A sua tarefa restringe-se apenas a passar-lhe serenidade de que tanto precisa para passar à outra fase.  

Ali está ela deitada, frágil e insegura em relação a essa nova experiência tão profunda,  aos sintomas que lhe enfraquecem o coração, abrindo-lhe o acesso ao inexplorado.

Talvez tenha medo. Sempre teve esse medo da incerteza sobre a eternidade. Não está ainda preparada para abrir mão do lado de cá. Das memórias e da família. De toda essa bagagem que comporta momentos de grande sofrimento, para os quais nunca houve remédio possível. 

Vêm-lhe à cabeça um número infinito de recordações, mesmo as que nem sabia que tinha. A paixão e o desamor, os pais, os irmãos, o marido, os filhos. Os netos e bisnetos, os amigos de toda a vida. As casas e as cor das paredes, a praia e a calma do Alentejo. As viagens, as peripécias e a fortuna que jamais conheceu. A caminhada sistemática entre a fé que procurou e o desalento que às vezes teve como contra-partida.  Uma existência inteira junto aos extremos, ora no topo e rindo-se dela própria, ora afundada no mais aflitivo dos abatimentos. Lembra-se de todos os que ama, um a um e da importância que tiveram ao longo da sua vida. Cada um é especial à sua maneira assim como ela o é para cada um de nós. 

Pode-se gabar da sua graça, da sua sorte e das suas experiências, já que todas elas são únicas.

Sentado aos pés da sua cama, o anjo sorri, deslumbrado por esta vida complexa e tão cheia de sabedoria.