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Digo eu

Digo eu

Exagerar é enfraquecer (Jean-François De La Harpe)

 

 

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Em miúda, era daquelas  que não precisava de ginástica. A minha energia dava e sobrava para subir às árvores, trepar dunas, andar de bicicleta, mergulhar o dia inteiro nas ondas e andar quilómetros a pé para todo o lado. Nunca tive moto (embora andasse à pendura) muito menos um carro até me casar, ou seja  já com 28 anos em cima. 

Houve uma altura, no decorrer desses 28 anos, que passei a ser fanática da ginástica e da dança e cheguei até a dar aulas entre Cascais e Lisboa. Dava ao litro 4 a 5 horas por dia, puxando pelo corpo quase até à exaustão.

Os meu meios de transporte eram o comboio, o autocarro e as minhas pernas que se moviam a uma velocidade estonteante. Os músculos desenvolviam-se ao mesmo tempo que crescia a adrenalina e nada me fazia parar. Nos intervalos, recorria às máquinas de musculação,  percorria distâncias consideráveis a pé, enfiava-me mar adentro com o meu body board e à noite lá ia eu, radiante da vida para a borga. Dançava a noite inteira sem me cansar, chegava de madrugada a casa para me deitar por brevíssimas horas. No dia seguinte, o mais tardar às 10 da manhã estava na praia, retomando a minha rotina desnorteada,  até ao dia... O dia em que comecei a fraquejar. 

Tinha tonturas estranhíssimas que me davam ataques de pânico no meio da rua. Atrás das tonturas vinha a falta de ar, as câimbras e a sensação de impotência total para reagir. O suor escorria-me por todo o lado, a língua ficava presa, a cabeça pesava-me. Cheguei a pensar várias vezes que ia morrer ali mesmo, sem ninguém que conhecesse ao meu lado. Tinha medo de tudo. De andar,  de comer, de sair com amigos, de falar. Perdi peso ao ponto de ficar pele e osso, perdi a frescura e a alegria, perdi por completo a noção do meu estado. 

Tive problemas de coluna graves, problemas de auto-estima e uma enorme dificuldade em encarar que tudo tinha acontecido pelo excesso, por ter ultrapassado o limite das minhas capacidades. 

Foi muito difícil sair dali. Criei aversão ao exercício, deitando o corpo em qualquer espaço sem vontade nenhuma de comunicar.  Durante anos a fio a meu corpo passou a ser miserento e o meu estado de espírito uma lástima. O medo tomou conta de mim e foi preciso recorrer aos ansiolíticos para poder voltar a uma vida minimamente aceitável. 

O excesso era o meu hábito até me terem chegado sinais que ele mesmo me empobrecia  e em nada me beneficiava. 

É difícil saber onde está o equilíbrio, o nosso equilíbrio. Foi necessário perdê-lo e perder-me de certa forma também,  para aprender a distanciar-me das soluções extremistas que equivalem a venenos que podem ser fatais.