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Digo eu

Digo eu

Promete-me chorar

Ai meu Deus tanta emoção junta! Nem sei como dá para aguentar este movimento que não pára nunca de percepções e memórias. Estou feita num 8 e sabes porquê? Porque de há uns tempos para cá comecei com a mania de controlar a minha postura e até as minhas expressões faciais quando sinto alguma coisa. Sempre me disseste que eu era estranha por não chorar.

Vou tentar explicar essa questão perturbadora ou desconcertante, enfim essa parte de mim que te incomoda e que me incomoda a mim também. Se me perguntares como é que ganhei essa mania e em que altura da minha vida, acho que nem te sei responder. 

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Lembro-me sim de ser de lágrima fácil, de ter o corpo inteiro a chocalhar com os soluços que me vinham da alma. Achei melhor controlar-me, talvez por vergonha que os outros me vissem naquele estado miserável, como se o mundo tivesse acabado. Era sempre isso que acontecia quando eu chorava. Naquele preciso momento o mundo acabava e o drama era real.

Bastava que os meus irmãos se baldassem ao meu jantar de anos, que ainda por cima são logo a seguir ao Natal,  para eu ficar uma lástima. Toda eu era ranho, toda eu era lágrimas e sentia essa ausência como uma traição ou um abandono. 

Nunca gostei de traições muito menos de abandonos. É triste e desumano! Sempre foi execrável fazer anos depois do Natal. A festa já tinha sido, com todos os preparativos que duravam uma eternidade. Era memorável o Natal na nossa casa e até hoje me lembro com saudade de tudo o que ali se passava. A casa quentinha e enfeitada, o presépio cheio de figuras dispostas nos devidos lugares, assente sobre musgo apanhado por nós na mata. A Missa do Galo e a ceia com tudo o que havia de melhor e as companhias tão agradáveis. Nós radiantes naquela casa em tempos felizes que já lá vão.  

Depois vinham os meus anos naquela data mesmo estúpida que não lembra a ninguém, pendurada num dia qualquer entre o Natal e o Ano Novo. Era mesmo para esquecer. Afinal havia outras coisas mais importantes para fazer, como pensar em preparar outra festa maior - A entrada no ano seguinte, os agradecimentos e os pedidos, enfim as intenções. 

Eu tinha o pretexto para chorar de não ligarem assim tanto à minha data. Tinha outros pretextos - claro - e qualquer um servia para me desmanchar. 

Achei que devia ser mais forte sem nunca perder a sensibilidade que me era inata. Fazia força para não chorar quando tinha vontade, sorrindo para disfarçar. As dores de cabeça eram tantas que pensei que ia enlouquecer. Toda eu me contraía e ficava tão hirta quanto o ACTION MAN!  Quando penso nisso, acho ridículo - sinceramente.  Só sei que o tempo foi passando e eu fui desaprendendo a nobre arte de lavar a alma, o que é um desastre. Dizem que tenho um ar triste. E tu o que é que achas?  

Se queres que te diga a verdade, espero que não faças o que eu fiz e que nunca de inibas de chorar, ou ainda ficas velha antes de o seres. Para ser forte estou cá eu, fingindo sê-lo ou sei lá! Chora. Chora bastante. Chora sempre que tiveres vontade sem te preocupares com o que os outros possam pensar.