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Digo eu

Digo eu

Homem triste, pobre mulher

 

 

 

Hipoteticamente, o homem já não precisa de companhia, o que é triste.  Tem tudo à mão de semear num computador de bolso que leva para todo o lado, ficando cada vez mais isolado. 

É uma espécie de guia espiritual e a sua companhia mais assídua, tendo-se tornado num vício tremendo que o afasta de toda a gente.

Já não precisa de fazer charme nem de entrar em diálogos, podendo em vez disso comunicar através das teclas do seu maravilhoso computador de bolso. Está mais avançado no tempo do que o  2001 odisseia no espaço. Que digo eu? Muito mais avançado! Afinal esse filme é do século passado e retrata mal a existência do homem no futuro - HOJE

Bem, o que eu sei é que HOJE, o homem continua a afastar-se do planeta para andar mais concentrado na informação que lhe chega de toda a parte. Ela vem lá de cima,  através duma rede complicada via satélite,  que a gente mais simples não consegue entender, assim como também não acredita que o homem já aterrou um dia na lua, navegando dentro duma cápsula minúscula a cuspir fogo da cauda. 

Tenho presente na minha cabeça, a imagem de pobres casais enfiados nos cafés a beber uma bica, em que a desgraçada da mulher ficava incomodada pela falta de atenção do marido, que tinha os cornos enfiados numa merda dum jornal. Ela por sua vez disfarçava, abrindo e fechando a mala para retocar o batom ou colocar um pouco mais de pó de arroz na sua cara triste e conformada. Dava vontade de chorar.  

Na era moderna, passámos do egoísmo machista para termos o triste cenário de marido e mulher viciados em tudo o que o computador de bolso lhes oferece - O machismo, esse nunca há-de acabar.  

Conversar é um verbo que passou de moda.  As dúvidas existências ou os problemas entre casais não se discutem mais. Hipoteticamente também já não se namora. 

Parece haver um certo repúdio pelo toque ou pela fala, substituídos pela oferta variada e tão cómoda dos computadores de bolso, esse aparelho fenomenal que custa os olhos da cara, que se troca cada vez que surge um ainda melhor no mercado.

A casa pode cair aos bocados que é um bocado indiferente. Já não há prazer nenhum em fazer o jantar ou em pôr a mesa duma forma romântica com velas de ambos os lados. Traz-se comida de fora que é tão mais prático e poupa-se uma data de massa para gastar no último grito em tecnologias avançaderrimas. Que se lixe o convívio. Dialogar é uma treta que acaba sempre em discussão da grossa. Então a malta tem uma boa desculpa para andar calado, euforicamente cabisbaixo, o que é uma hipótese ou um facto concreto.   

Se o silêncio fosse por uma boa causa! O pior é que o silêncio se tornou incómodo quando não há computadores de bolso no bolso. Os casais enfrentam-se com o terror de se verem obrigados a falar, ou não. Hipoteticamente, ainda existe a desculpa de sair para ir beber uns copos. Juntos? Não, não. Separados é melhor. 

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