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Digo eu

Digo eu

memórias de infância

 

 

 

 

Tenho recordações de infância que jamais esquecerei. 

A Casa da Marinha fez parte da minha infância, com tantos mimos quanto terrores de alguém que cresce no seio duma família enorme. 

Tenho presentes momentos inesquecíveis, como as refeições à volta duma mesa gigante feita de troncos de madeira. Era um ritual sagrado, onde ninguém se atrevia a chegar atrasado, de fato de banho e t-shirt ou com uma toalha enrolada na cabeça para proteger o cabelo molhado. 

Havia espaço para tudo: das risotas aos sermões, dos discursos aos silêncios, da postura sempre direita com os cotovelos bem junto ao tronco. 

A disciplina era severa e inflexível, ainda que rolassem brincadeiras, cantorias e jogos onde todos participavam. 

O final da tarde era para um uma hora fatídica. O dia ia acabar e o medo da noite que se aproximava a passos largos, deixava-me angustiada. 

Com tanta mania de ser independente, custava-me ter que dormir sozinha sem ninguém com quem falar. Os quatro rapazes acima de mim dormiam todos juntos. E eu só queria era fazer parte daquele grupo, mas não fazia. Também não fazia parte do grupo das minhas irmãs, todas bem mais velhas do que eu. 

Eu era um ser único sim e mimado também. Tinha uma casinha de bonecas invejável e a atenção virada sobre mim nalguns aspectos. Noutros, como brincar sozinha e falar comigo própria, ninguém sonhava o quão solitária me sentia numa casa cheia de gente, com correrias constantes e assuntos importantes para resolver. 

As minhas opiniões formaram-se a partir de então. Gostaria de as ter partilhado com alguns dos meus irmãos, mas durante esse período que foi a minha infância, eu não tinha nada que formular opiniões, muito menos dividi-las ou pedir conselhos a quem quer que fosse.

Eu era a menina bonita de laço na cabeça que agradava a todos e que todos pegavam ao colo, como se fosse um brinquedo estimado, desde que fizesse o que me mandavam. Por isso aprendi a engolir muito do que não queria ou não gostava.