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Digo eu

Digo eu

O mundo severo de Maria (franzina)

 

 

 

 

Maria franzina de cabelo moreno e olhos castanhos rasgados, habituou-se a saltar da cama às 6 horas da madrugada, ainda no meio da escuridão e à luz da vela.  Arrastava o corpo com passinhos de corrida e continha as lágrimas para se lavar na água dum tanque coberto de gelo, que partia com uma pedra e toda a força que conseguia.

As suas mãos eram pequenas  mas já calejadas pelo hábito repetitivo e forçado e o seu corpo magro tremia de frio só de pensar na água do tanque gelada que a esperava.  Era a única maneira que havia de se manter limpa e apresentável durante o dia longo que se avizinhava. Ali não havia luxo nenhum. Nem sequer um espelho. Tinha apenas uma barra de sabão, escova e pasta de dentes e um pente, metido à pressa na mala pela avó. Penteava o cabelo moreno cortado a 3/4 e punha um laço para realçar os seus traços, sem ao menos poder ver como era a sua imagem. 

A disciplina rigorosa era ditada pelas freiras do colégio interno, não permitindo a Maria franzina de expressar o mais leve esboçar de pesar ou contentamento. 

Era ali que tinha que estar para aprender. Não só as matérias obrigatórias como todo um conjunto de tarefas destinadas a meninas como deve ser. Ali não havia querer nem hipótese alguma de contrariar aquela maldita tirania, aplicada por mulheres supostamente  benevolentes, de terço pendurado ao pescoço. 

Ali passava os seus dias, as suas noites e até os seus fins de semana, quando devia ir a casa brincar para recuperar da severidade a que era sujeita.  Foi ali que fez a sua primeira comunhão, o dia em que mais chorou a ausência negligente da sua mãe. Nas férias ia para casa dos avós, já que a sua mãe não tinha tempo para ela nem para o filho mais novo, que era tratado por Maria franzina como o seu filho mais velho, a quem dava todo o seu amor.

Eram companheiros de grandes conversas, confidências e gargalhadas sinceras, partilhando os melhores momentos de cumplicidade fraterna. Deitados sobre a relva, falavam sobre tudo o que queriam e  sonhavam com tudo o que podiam, aproveitando para esquecer as razões duma infância polémica. Maria franzina foi crescendo assim, entre o colégio interno e a casa dos avós, sempre cuidando do irmão mais novo como seu filho mais velho. Não sei como mas apesar de tudo, Maria franzina dizia que tinha sorte por ser feliz.