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Digo eu

Digo eu

Planos de vida

 

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A miúda era inteligente e como todas as pessoas inteligentes tinha um raciocínio muito próprio. No que dizia respeito aos homens em geral, deixava-se enganar pelo juízo que fazia, guiando-se por alguns exemplos que conhecia e dos quais não gostava. Ainda não tinha conhecido ninguém que lhe tivesse tocado nem de leve naquele órgão do corpo purificador do sangue, mais conhecido por coração. 

Dotada de um raciocínio brutal, dizia que não estava nos seus planos apaixonar-se nem ficar dependente de ninguém. Falava da sua vida como se nela não houvesse espaço emocional que comportasse alguém do seu lado, partindo do princípio que esse alguém lhe iria roubar a sua personalidade.  

Sabia que não deveria julgar os homens pelo que eram por fora, que a verdadeira beleza estava dentro de cada um, mas não estava receptiva para entender os sinais, ainda que tivesse uma antena dirigida para os planos do futuro. Era lá que se focava, dando prioridade ao sonho de correr o mundo de mochila às costas. 

A paixão não estava nos seus planos, ou melhor, apaixonar-se. Olhava para esse verbo com algumas reticências e uma certa desconfiança. Nas suas previsões metódicas concluía que o seu caminho não tinha que passar por esse território duvidoso. Preferia aventurar-se noutras áreas, mesmo sabendo dos perigos que corria, intitulando-os de experiência de vida, autonomia, conhecimento e razão. 

A miúda era inteligente mas tinha medo de se entregar, de perder o controle, de se deixar ir e não ter como voltar. Tinha medo desse tão desconhecido campo do amor, medo de sair dela própria, medo enfim de arruinar a sua vida pela possibilidade de não ser correspondida com a mesma euforia, a mesma paixão.