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Digo eu

Digo eu

Saber rir

 

 

 

 

Deixa-os lá falar. Deixa-os espernear, entusiasmados com a espuma que lhe sai pela boca envenenada. Na perspectiva deles o que dizem está certo e não há que contestar - eles não sabem rir! 

É pena serem tão pouco saudáveis nessa forma que têm de nos ver. Para eles somos malucos e tudo o que vem por arrasto (provavelmente devíamos estar todos internados num hospício). 

Afinal de contas quem nos conhece bem, sabe o coração grande que temos todos nós. 

Mesmo quando gritamos para nos fazermos ouvir. 

Mesmo quando nos calamos para não arranjar conflitos. 

Mesmo quando nos repetimos e nos rimos das histórias que já foram  contadas mais de um milhão de vezes. 

E a cada vez que as ouvimos, lá nos rebolamos a rir, como da primeira vez que foram relatadas por um de nós.  

A nossa imaginação é fértil e poderosa. Tem cores e formas, estilos e plataformas, dialectos únicos e palavras inventadas que só podem fazer rir até as pedras da calçada. 

Quem nos percebe, tem sorte. Entra na onda e deixa-se ir por esta corrente tão própria, criada como estratégia de revolucionar a rigidez da disciplina que fomos obrigados a engolir.

Entre nós sempre houve códigos e troca de olhares que diziam muito. Desde o "põe-te direito ao cala-te, foge, esconde-te e senta-te ai", até ao "estamos feitos e vamos bazar mas é daqui antes que sobre para mim e para ti".  

Encobriamos-nos uns aos outros para nos safarmos, mesmo quando não havia como fugir: das regras, dos sermões, dos estudos, das rezas e das missas, da hierarquia que tínhamos que respeitar, das secas que nos faziam passar e de baixar a bola sempre que era preciso. 

Por isso fugíamos sempre que possível. Por isso nos riamos tanto quanto podíamos. 

Inventávamos alcunhas e fantasiávamos palavras, sempre com o intuito de rir. Dos outros e de nós próprios e até mesmo quando queríamos chorar. Abríamos uma excepção onde havia espaço para curtir, sabendo que nada melhor nos safava, ainda que mais tarde levássemos uma chapada.