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Digo eu

Digo eu

Tudo sobre a minha mãe

 

 

 

 

 

 

 

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Meio século e um pouco mais depois, já não esfrego os olhos quando acordo e nem sequer me espreguiço. O corpo vai ficando diferente, mais velho e cansado, por toda a bagagem acumulada desde o dia em que nasci.  Memórias e análises empilham-se dentro do meu corpo como livros de histórias, guardando no coração as mais indispensáveis para não me perder. 

Todos os dias penso na minha mãe, na sua força e coragem, uma vida inteira de sacrifício e entrega a Deus em tudo o que fazia por amor. Lembro-me da minha mãe com meio século e um pouco mais de vida,  como eu agora tenho, daquela sabedoria tão mais valente do que a minha, da sua caminhada inteiramente dedicada aos outros e nos sonhos que deixou para trás. Penso na sua existência e no pouco afecto que recebeu, no sofrimento calado enquanto era repreendida por mostrar os sentimentos duma criança expressiva que precisa de  rir ou de chorar, quando era essa a sua vontade.

Penso nela todos os dias e todos os dias me pergunto como conseguiu aguentar tudo e todos, sem nunca abrir a boca para se queixar.

Aquela mulher minha mãe era um autentico pilar, onde todos se encostavam sem se darem conta da sua fragilidade, que a vida tinha obrigado a esconder para crescer antes do tempo, renunciando a alguns prazeres para ser mãe adolescente. 

Meio século e um pouco mais depois, ainda tenho ilusões e uma certa ingenuidade em relação à vida, assim como tinha a minha mãe. Não creio que isso faça de mim uma tonta e de tonta a minha mãe não tinha nada. Ela simplesmente acreditava que era aquele o seu destino, um caminho de entrega total, sem grandes alaridos ou grandes exigências duma contra-partida que favorecesse algum dos seus mais íntimos interesses.

A família estava sempre em primeiro lugar. Era essa a forma que tinha de demonstrar afecto e dedicação por todos nós. Um beijo e o sinal da cruz na testa de cada um ao deitar, não eram as únicas manifestações de amor. Uma mulher que se entrega como ela se entregou, sem nunca voltar atrás, só pode ser por amor. 

Com meio século e um pouco mais, sei que herdei parte da sua natureza mas nunca lhe vou chegar aos calcanhares. Uma mulher assim, com um perfil tão altruísta, só mesmo a minha mãe, a quem atribuo o Prémio Nobel da sabedoria e da infabilidade.

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